quarta-feira, 21 de março de 2012

a pele, revival

Lembram que eu postei essa danada por aqui no meu dia? Pois é.

Dessa vez resolvi trazê-la a tona neste revival porque Rinah Souto, a generosa moça que deu cor na canção minha e de Chico Limeira, cantou a canção no seu mais recente concerto na Estação Ciência. O resultado 'cês vêem nesse vídeo. Na qualidade de autor, pouts!, a pele arrepiou. Tem alguém aí? Se tem, deixa uma menarca. Chico, Rinah e eu vamos ficar bem contentinhos :)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

alguém, só que no feminino

‘woman, I know you understand the little child inside of the man’
[Mr. Lennon]

                Eita, que eu ando fevereiro! Já mais de mês que eu me devo um texto assim, uma postagem assim, uma coisinha assim. Espero que gostem! :D



E agora há uma paisagem que me grita nos ouvidos, na memória, alguma coisa em indeterminado idioma. Paisagem antes útil, antes inútil. Never fútil. Aqui é uma praia relativamente clara, por trás passa uma avenida meio larga de cinza negro asfalto. Carros poucos, senhoras gordas caminham suas vidas pela calçada, um homem muito queimado de sol e pobreza vende cocos e a si pelo valor dois reais. Aqui tem um quiosque atrás do outro. Todos diferentes, todos iguais. Aqui na areia minha lembrança cata um canudo, embalagens de picolé caseiro, marcadores de livro, um par d’óculos que alguém esqueceu. Aqui catei uma embalagem de camisinha usada. Espero não encontrar a danada. Olha que minha lembrança catou agora um grupo de homens bonitos/ou não jogando vôlei. Jogam mal?, não me interessa. Isso não me interessa. Minha lembrança catou alguém sentado na areia. Por que a palavra ‘alguém’ é masculina?, ora que o alguém que eu vejo é mulher. Sim, mulher. Minha lembrança observa pelo canto do olho alguém sentada na areia olhando o mar. Reconhece? Reconhece. Aqui o nome dessa alguém poderia ser Larissa, Gabriela, Mariana. Poderia bem ser Marina, (i)Nara. Cecília, Carolina, Lua. Talvez carregue nome estrangeiro. Ananda, um ar de rio nas bochechas. Aí você pensa ‘será que ele quis dizer ar de riso e engoliu uma letra?’. Não. Minha lembrança é precisa, era ar de rio mesmo nas bochechas. Olha que é aqui que o doce encontra o mar. Poema na curva dos lábios. Seu nome aqui pudera ser Dôra, Giovanna. Pudera ser Anita. A mulher abraça seus joelhos, ajeita sobre o nariz os olhos escuros sobre os olhos de verdade. Minha lembrança não precisa de olhos escuros pra ver essa alguém. Capaz de seu nome ser Luíza, Jade, Raquel. Se for Raquel e tiver uma irmã, pode que seu nome seja mesmo é Ruth. Minha lembrança não vê novelas, mas escuta. Minha lembrança também pega ônibus. Capaz seu nome seja cor-de-Rosa,  Roseane. Olha que aqui a mulher já espichou novamente suas pernas. Água doce desaba de suas bochechas, algumas gotas minha lembrança catou sobre a areia pra levar pra casa. O doce encontra o sal? Não sei. Seu nome é Lucia? Lucinete? Aqui ela se levantou sobre os dois pés na areia. Abriu os braços pro mar. Beba-me. Deu um grito? Não sabe, minha lembrança não a observa de tão perto que a escute. Põe a mão nos bolsos e vai embora. Aqui seu nome agora era Saudade. Ou era Déa? Regina? Não. Era Saudade mesmo. Era Maria.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

e etc.

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome. [...]’
[João Cabral de Melo Neto]


                Começar 2012, um ano que tem toda uma aura apocalíptica-midiática-cinematográfica, falando de amor. Quer melhor presságio que esse? Espero que essa brincadeirinha vos agrade :] Que o ano que começa seja de muita luz – só assim pra gente enxergar as coisas boas que merecemos e aquelas que necessitam de uma lustrada. Feliz ano novo, meu povo. Ah, e vou dedicar a postagem de início de ano à Profa. Cida. Se ela tiver lendo isso agora, queria um comment :B


I
¿amor uma hora dessas?


II
 - ¿me ama?
 - inhame.


III
em Mianmar
‘inda se morre de
saudade.




segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

corpses

‘poesia é voar fora da asa’
[Manoel de Barros]
               
Sou da tese de que, nos nossos caminhos, já há tudo que esperamos e merecemos: amor, dinheiro, paz, saúde, sucesso, cerveja, poesia, amigos, família, descanso, trabalho. A nós, só falta luz. Luz pra que a gente veja essas boas coisas todas sem precisar tropeçar. É pensando nisso que fecho o ano cá na versorragia: esperando que 2012 seja uma tempestade de leveza nos corações de quem a busca! Saravá, tudo há-de dar certo.
O poema abaixo é, na verdade, parte integrante de um outro texto longo que ando escrevendo já faz uns dias. Hope you like it J
A postagem desse dia eu dedico a Samara, que já a esperava há um tempo. Voilà!



um corpo funciona mais ou menos da mesma maneira que um poema.
um corpo precisa de água, luz, comida, cama, quintal.
um corpo também requer que uma mão carinho passe sobre si quando em vez.
da mesma forma o poema.
o poema precisa a luz água cama comida quintal.
o carinho, o poema chama.

assim como os corpos, quando nus,
os poemas também se deitam juntos, unos,
atravessados,
esfarelando os suspiros uns aos outros.

os homens bebem dos copos,
os poemas dos corpos,
os corpos dos homens.
a cada verso, um gole.

tal feito o poema,
os corpos se lêem uns aos outros.
se desvendam, se escrevem, se remetem e
sobretudo
se rasgam e se rabiscam. Se rascunham.

poemas lavando pratos,
corpos juntando poeira nas estantes.
poemas pagando contas,
corpos sendo roídos pelas traças.

assim como o corpo,
o poema também tem
prazo de validade:
a eternidade.


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

a pele

‘viajar entre pernas e delícias’
[Djavan]


Postagem de aniversário J Eu guardava esse texto para um dia especial que não parecia chegar nunca, até que... chegou! Parabéns pour moi. O dia hoje é só de alegrias!
                O texto que segue é fruto de uma provocação daquelas boas. Dia desses, após uma homenagem ao maestro Pedro Santos, o compositor Chico Limeira (sou sósia dele) me deu a cantada: estava com uma melodia pronta pedindo por uma letra. Eu, que sou fã do cabra, senti-me deveras honrado e, me utilizando de um outro poema que andava guardado por aqui, escrevi ‘A Pele’. Vale ressaltar que, ao escrever, pensava na voz de Rinah Souto, essa danada que já há um tempo nos encanta com a voz e com o sorriso. Ainda não tive a sorte de ouvi-la cantar ao vivo essa minh’A Pele, mas um dia eu chego lá. Espero que gostem J


Anoiteceu
Esfriou
Minha vontade despiu-se sem medo
Meu rosto, meu peito
O meu desejo, meu cansaço, minha voz
Tudo é nudez
E eu só te peço que
Fiquemos sós, meu bem

A pele que arrepia
Anseia teu toque
O beijo atravessado
Tem a mesma sorte
Só quero que tu venhas
Vestindo o avesso
Escreve no meu corpo
Desvenda o segredo

Amanheceu
Clareou
O sol insiste em ferver os amantes
Teu beijo ‘inda queima
Esse teu cheiro que incensa os meus lençóis
‘Inda mora em mim
Ficou no meu texto o teu
Beijo feroz, meu bem

A pele que arrepia
Anseia teu toque
O beijo atravessado
Tem a mesma sorte
Só quero que tu venhas
Vestindo o avesso
Escreve no meu corpo
Desvenda o segredo

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

dueto

‘eu queria que a mão do amor um dia trançasse os fios do nosso destino!’
[Roque Ferreira, seja com Roberta, seja com Maria]


Haja fôlego pra segurar a onda de tantas conquistas nos últimos dias! A tsunami de boas novas veio tão forte que eu-quase me esqueci da versorragia. Grifo nosso no quase, rs. O texto abaixo – à guisa de soneto, retomando uma forma já antiquada com direito a apêndice e tudo! - veio coroar uma idéia prum projeto próximo que 2012 deve trazer consigo. Bons ventos soprem e sobrem ao ano que se anuncia!


Eu  - ‘stou pronto. Ando tonto. Sigo alerta.
Vou louco de deixar a porta aberta
pra ver entrar a sombra do teu beijo.
Nem anjo, nem demônio, nem lampejo
de raio de luar que te anuncie.
Uma brisa sequer que denuncie
uma chegada tua, ‘inda não há.
Por que essa demora de chegar?
Tu  - Não tardo, meu amor, juro que não.
Desejo o que não cabe no poema,
só quero o que não cabe na canção,
 o que nunca não foi de ninguém tema.
Sigo distante contigo sonhando
com o momento em que me dirás quando.
Eu – Quando.


domingo, 20 de novembro de 2011

muito romântico #2

‘tão bom morrer de amor e continuar a viver’
[Mário Quintana]


uns pés, uns mãos, uns cabeça, uns só coração
                Postagem boa, essa, de se redigir! Ontem a noite, no Teatro Santa Roza, a BandaUns fez o show de encerramento da Mostra Estadual de Teatro e Dança. Foi um momento muito belo e especial, repleto de som, poesia e Caê J



Fotos: Pedro Rossi

               


Antes de cantar ‘Não Identificado’, levei ao mundo o texto abaixo, escrito especialmente para a situação. Espero que gostem!



Se você estivesse aqui, hoje, sentado ao meu lado, eu confessaria na frente de toda essa gente a pior das minhas verdades: nunca me canso de poemas de amor. Você gargalharia alto. Você sempre gargalha alto. Entre sorrisos, me perguntaria porque nunca me canso dos poemas de amor. O amor, você diz, é por si só exaustivo, não precisa que a literatura lhe pise nos ombros. Eu desviaria o olhar por um momento ao fundo da platéia. Depois te encararia e diria: acontece que, para amar, são necessárias duas coisas. A primeira delas é a incerteza. Sem a incerteza, não haveria saudade. Sem saudade, não haveria música. E qual o sentido do amor sem a música? Falo da incerteza que ataca a todos, ao menos uma vez na vida, lá pelas três da manhã. A incerteza do homem de negócios, do vendedor de peixes, do estudante secundarista, da dona de casa, do apresentador de TV. É a incerteza impressa nas canções de Roberto Carlos que a sua vizinha insiste em cantar todo domingo de manhã. A incerteza do sentimento do outro. A segunda delas é a beleza. Ah, a beleza. Não aquela beleza greco-romana, aquela beleza olhai-os-lírios-do-campo, essa beleza não interessa a quase nenhum sentimento. Também não é aquela beleza engarrafada de prateleira de supermercado, a beleza de 1,99 também os interessa pouco. Me refiro a uma beleza mais pé descalço, uma beleza mais cabelo assanhado, mais Gal Costa, mesmo. A beleza vem dar molde ao que não tem nome no amor pelo outro. Por isso que um casal é quase-sempre formado por duas pessoas: numa delas sempre reside uma carga maior de incerteza e na outra uma carga maior de beleza. Não existe o amor perfeito. Não existe em pessoa alguma carga equilibrada de incerteza e beleza. O único ser vivo capaz de segurar essas duas grandes forças é o poema. Assim sendo, meu amor, como eu poderia me cansar deles? Você, nesse momento, seria só espanto. Só olhos arregalados. Depois de respirar profundamente, me indagaria, num misto de pergunta e afirmação: isso aí que você acabou de me dizer, isso aí é um poema de amor. Eu, igualmente surpreso, diria: É? Talvez. Não sei. Acabei de fazer.