quinta-feira, 26 de maio de 2011

Meu eu, Ícaro

‘o sol pega o trem azul
você na cabeça
o sol na cabeça’
[Clube da Esquina]

                Resgate é sempre bom. E importante. O poema que hoje posto está no meu primeiro livro, ‘Cheio de Nova estação’, publicado em 2008 pela CBJE. A publicação veio como um – lindo – presente da minha mãe pelos meus quinze anos.

Encaro esse livro como um importante registro histórico. Explico: comecei a escrevê-lo por volta dos seis anos, e terminei-o entre os dez e os onze. Parei de escrever poesia nesta época, dedicando-me a outras atividades da arte (voltei pros versos em agosto de 2010, hemorragia incontrolável enquanto ainda dura). As ilustrações do livro ficaram a cargo de Vant Vaz, grande amigo e parceiro, fundador da Tribo Éthnos, e a apresentação nas mãos do poeta e ídolo Lau Siqueira. Espero que gostem deste, é o meu preferido do livro! J















Se meu desejo é
voar
que voar seja o desejo
da sonhadora flor presa
ao chão

Se meu desejo é conhecer
o sol
que esse seja o desejo do sol
me conhecer para voarmos
juntos


Que os pássaros
planem
comigo sobre as nuvens
de algodão do
céu

Nas asas de cera
oculto a sabedoria de
voar alto
e o delírio de uma
liberdade


quinta-feira, 19 de maio de 2011

poesia quebrando os muros

‘todo artista tem que ir aonde o povo está’
[Milton Nascimento]


                Essa deve ser a primeira vez que não posto um poema no blog. Não acho que vou me habituar a isso, mas é por uma nobre razão :)


                Enquanto escritor, ator/diretor, focalizador de Danças Circulares, metido-a-cantor e consumidor de arte, um dos maiores desafios que vejo para a classe artística é fazer-se ouvir – seja pelo público, seja pelas organizações governamentais. A literatura, num país iletrado, principalmente! Cria-se ao redor daquele que escreve uma espécie de aura inalcançável, fruto de uma cultura elitista que supervaloriza a cultura clássica (as palavras apegadas ao papel) em detrimento da popular (onde a literatura é, originalmente, oral). O bom escritor precisa de isolamento e silêncio pra produzir ou o bom escritor é de uma sapiência inigualável ou o bom escritor não comete erros gramaticais/ortográficos ou whatever. O pior, dos meus dezessete anos de ponto de vista, desses mitos ao redor do bom escritor, é que o bom escritor é uma pessoa de idade avançada! – não que eu tenha comigo a idéia de que sou esses balaios todos na escrita, ‘escrevo porque preciso, preciso porque estou tonto’, mas tem que ser muito preconceituoso pra acreditar num negócio desses. Foi pensando nestas dificuldades que o segmento literário sofre que foi fundado em Janeiro deste 2011 o Núcleo Literário CAIXABAIXA. A convite de Betomenezes, juntei-me ao grupo, que é repleto de talentos em diversos gêneros da escrita. O Núcleo tem como objetivo propagar a existência da nova literatura do nosso estado, além de criar mecanismos para a sua divulgação junto aos órgãos públicos e privados – e, claro, servir de espaço para intercâmbio entre os escritores. So far, so good, a experiência está sendo deliciosa.


                E na próxima semana, o CAIXABAIXA sai do mundo virtual para encontrar o povo no seu primeiro evento público oficial: o I SARAU POÉTICO DO CAIXABAIXA, promovido pelo Núcleo em parceria com a Prefeitura Municipal de João Pessoa e a Estação Cabo Branco de Ciência, Cultura & Arte. Será uma maravilhosa oportunidade de conhecer os novos nomes da cena das letras do estado, além de mergulhar na poesia desse povo. Vamos?




SERVIÇO
O quê? I SARAU POÉTICO DO NÚCLEO LITERÁRIO CAIXABAIXA
Onde? Salão Panorâmico da Estação Cabo Branco de Ciência, Cultura e Arte
Horário? Das 19h as 22h
Entrada franca.



sexta-feira, 13 de maio de 2011

13 de Maio

‘ a música dos brancos é negra
a pele dos negros é negra
os dentes dos negros são brancos’

[Adriana Calcanhotto]


                 ‘Dia 13 de maio, em Santo Amaro, na Praça do Mercado, os pretos celebravam – talvez hoje inda o façam – o fim da escravidão, da escravidão’. Eu queria uma postagem que retomasse a mesma intenção daquela do dia 31 de março (lembrar pra não esquecer, esquecer pra não repetir). A questão racial no Brasil é algo muito delicado, e eu não me furtaria de versar sobre ela.


                Pensando nas matrizes formadoras do país, segundo Darcy Ribeiro, desde sempre me identifico muito e mais fortemente com a matriz negra. A minha natureza anti-teísta e, no entanto, extremamente espiritual, me impede de institucionalizar qualquer-fé que seja... porém não posso negar os pêlos que se arrepiam em mim quando escuto canções afro-brasileiras – também não posso negar esse meu nariz largo e esses meus cachos no topo da cabeça. Por isso o poema. Por isso, e porque sou brasileiro também.


eu sou
da cor
dos meus versos
 - negro, como as palavras
que saem
do meu lápis.
e se hoje
a minha pele
reflete o branco do papel
onde deito o meu poema,
creia:
é um acidente de linguagem.
(a minha cor, meu lápis não nega).






domingo, 8 de maio de 2011

naró

‘tudo são trechos que escuto, vêm dela
pois minha mãe é minha voz.’
[Caetano Veloso]


Mãe, estou aqui no apartamento dos meus avós. Agora, antes de dormir, que fiquei em dúvida se te tinha dito que viria pra cá ou não. Achei por bem amanhecer com minha avó depois de umas conversas que tive com meu tio... Chego cedo amanhã para almoçarmos juntos (:

Estava aqui pensando sobre a vida, a realidade, a verdade... filosofando, enfim. E me deu uma vontade louca de dizer que te amo. Muito. Sabe, a transitoriedade dessa humana existência da gente não nos consegue dar certeza de nada – nem do que é real! Mas uma coisa eu posso dizer: apesar das divergências, mãe, apesar das dificuldades, não existe circunstância que modifique esse sentimento que eu cultivo por você. Te amo, mesmo quando eu não mereço, eu te amo. Um beijo, boa noite, feliz dia das mães e até amanhã!

 - esse é o meu presente pra você, mãe... vai combinar super bem com o perfume e a echarpe colorida (:


minha mãe gerundia as canções.
se é dia ou faça noite,
carregando mundo por sobre as bochechas,
sorri feito rede de punho.

é sempre
é quase
é nunca

acho de minha mãe que me preenche de poesia
feito as dôras e os ivos no quintal.







sábado, 30 de abril de 2011

chico buarque de hollanda

‘saiba que os poetas, como os cegos,
podem ver na escuridão’

[Chico Buarque/Edu Lobo]



                Esse poema é novo, bem novo. Estou trabalhando num novo projeto, poemas que falem de música, da música, dos músicos, enfim... Aos poucos, vocês vão ver coisas novas dele por aqui. Este, em especial, fiz inspirado no retrato que Luyse (que se esconde aqui http://luluyse.blogspot.com/) fez do Chico, é uma ilustração letral para um retrato em branco-e-preto. Perdoem também a distância e as postagens tão fevereiras, é que estou sem internet =x
Enfim, espero que gostem J



você, que é artista, me diga:
qual a cor dos olhos de
chico buarque?
aquela mirada que sustenta
coisa pra desmantelo
matéria de poesia e
punhado de humanidade.


é, pois,
o único poeta que conheço
de não ser feito de palavras, mas
de samba
e de retinas.








sexta-feira, 22 de abril de 2011

encore des paroles


‘te olho
te guardo
te sigo
te vejo dormir’

[Chico Buarque]

 
                Eita, que fazia um tempo já que eu não dava os versos por aqui. Vortei! :) Dias desses postei cá um texto sobre um poeta dos meus preferidos, meu avô. Hoje, a gente dá continuidade à saga consangüínea pra falar doutro carinho meu, minha avó. Lucinete é luz, e gerundia doçura. Esse texto é das minhas recentes incursões no mundo do não-verso que é verso... Espero que gostem!





eu não vou dizer pra você que eu tive uma infância difícil. é foda ser brasileiro da classe média e dizer que qualquer coisa na vida foi difícil. eu poderia dizer então que a minha infância foi... peculiar? pff! adjetivos pra quê, né?, tem horas que eu não sei nem dizer se eu tive infância ou não. só houve um momento de certeza nessa minha jornada que eu soube ter de fato infância no ar de meu arredor; imagina aí: era eu, assim, menorzinho, barrigudinho, penteadinho, sorrisozinho, no colchãozinho. eu num extremo, minha doce e escorpiana irmã no outro. ao meio, eles. eles seguravam um jeito assim de quem carrega doçura desde sempre. no extremo de lá, meu avô olhava do alto da cama a minha irmã deitada no chão e lhe contava, no seu dialeto novembro, tudo que ela queria ouvir do alto dos seus cabelos loiros. no extremo de cá, éramos minha avó e eu numa batalha épica de canções de um tempo que eu não vivi.
enquanto estávamos acordados, eu e ela, conversando por dentre o escuro, eu via as luzes e as sombras que os carros produziam através da janela, projetando um filme kubrickiano na parede a minha frente, eu descrevia com as palavras que me cabiam todas as imagens que se poderia identificar da retina de um eu pequenininho. até ali, ainda era criança. mas acho que eu gostava mesmo era de ver os olhinhos da minha avó, cheio de histórias ao redor, lentamente fecharem ao som da minha verborragia.  hm... e importa?
isso tudo pra dizer uma coisa: espero que ainda haja netos nesse mundo que ponham suas avós a dormir – quando isso acontece é que nascem os anjos.   






quinta-feira, 31 de março de 2011

31 de Março

‘memória de um tempo onde lutar por seu direito
é um defeito – que mata!’

[na voz de Gonzaguinha e MPB-4]


                Tente ver o mundo do ponto de vista de um desaparecido político. Tente ver o mundo do ponto de vista de um torturado. Tente ver o mundo do ponto de vista de alguém que perdeu um pai, um filho, uma mãe, filha, marido, esposa, noivo, namorada, vizinho, amigo, amiga. Tente ver o mundo do ponto de vista de um exilado. Tente ver o mundo do ponto de vista de um estudante preso. Tente ver o mundo do ponto de vista das minorias. Difícil? Houve um tempo em que não se tinha direito a quase nunca. Não se tinha direito à palavra.

(é importante dizer que falar sobre a ditadura nunca é o suficiente – lembrar para não esquecer, esquecer para não repetir).



não tem ponto final.

era pra ser um dia joão goulart.
quando amanheceu, ainda tinha liberdade ali
misturada no orvalho que a aurora ainda podia trazer.
poesia afora,
eles vieram pra me jogar um país
reticências adentro.
foi um dia curioso, esse.
de uma hora pra outra, como?,
já se nem não respirava do mesmo jeito.
 - eu fico aqui pensando se era proibido ser poeta –

pois, pois, meus caros...
isso aqui não é um poema, devo informar.
é um apelo, é uma canção de protesto,
isso aqui é uma espécie de punho cerrado no ar
se a gente esquecer,
é capaz de não mais lembrar.

(isso não te assusta?)