sexta-feira, 8 de junho de 2012

a vitória da poesia #2

'o poema, a lâmina, a chama, a canção
subvertem a ordem obscura da vida'

[José Rodrigues]

Começo desse mês eu ganho um presente. Um não, dois. O primeiro se chama Flávio, o segundo se chama Nyka.



Não entendeu o título da postagem?

Não entendeu o motivo da celebração?



domingo, 8 de abril de 2012

não entendEu

‘entender é parede, procure ser uma árvore’
[Manoel de Barros]

                Andei por adquirir o agradável hábito de rechear as caixas de e-mail de Matteo Ciacchi, o meu já parceiro daqueles bons-velhos textos a dez mãos, com aquilos nos quais mais ouso. Vez por outra vou lá puxar no pé dele, aperreá-lo por um feedback. Esse foi o mais recente. O texto nem me agrada taaaaaanto, ora veja, mas a resposta de Matteo ao recorrente questionamento ‘o que foi isso que eu fiz, hein?’ foi tão feliz que resolvi trazê-la na íntegra junto com seu objeto. Oh lá!!

Isso, Gustavo, é uma forma sonata do período romântico tardio - formalmente bem definida, com elementos episódicos não relacionados com o todo, grupos temáticos contrastantes porém relacionados, um desenvolvimento e uma coda com elementos dos grupos temáticos - e é na coda que há mais elementos da tonalidade extendida, quase atonal, um colorido harmônico incomum que dá uma cara completamente diferente aos motivos do tema. Se Schubert tivesse nascido um pouquinho mais tarde talvez ele tivesse composto alguma coisa parecida com isso. Escuta a última sonata pra piano que ele compôs: o primeiro movimento é bem parecido com isso aí.
De Matteo, por e-mail.




Olha.
Os barcos já vão zarpar.

Olha.

Sofro severamente de absurdo. Vinha outro dia a caminhar rua abaixo, mãos no bolso, coração ajeitadamente no peito, pés nos sapatos quando, de repente, algo me pus a assobiar. Ora, até aí nada demais, huh? Algo pus-me a assobiar pelos olhos. Ora, vejam só. Ou não vejam, huh, assobiem. Há-que muito ser-se absurdo para propor-se assim a algo. O fato é que não me propus. Algo me pôs, algo me pus. Assobiava pelos olhos. E a boca cheia de lágrimas-proto. Afora isso, continuava a caminhar tranquilamente abaixo a rua, os bolsos nas mãos, o peito ajeitadamente arranjado ao redor do coração, sapatos aos pés. Uma luz mínima de juízo sentido que restava em mim, porém, sentia-se severamente desconfortável com aquela situação. Já não tenho mais idade pra viver assim atravessado.

Caminhava um homem, eu, rua abaixo. Assobiava pelos olhos, trazia trancadas a boca milágrimas. Milagre. Eita! Sorte minha que ninguém parou a me cumprimentar. Sentei-me a um banco de praça qualquer. Bebi lágrima-a-lágrima, bebime. Respiro fundo, cessa a música. Ponho-me a andar.

Olha. Os barcos já vão zarpar.

Meus olhos servem de perfeita moldura as minhas rugas. Exceto quando assobiam Brahms. Segui seguindo rua abaixo, tudo nos trinques, nos conformes. O corpo perfeitamente envolto na roupa. As idéias perfeitamente enterradas sob os meus cabelos. Ainda os tenho, vera que pouco. Siga, eu. Eis-aí que meu mal vez mais uma me ataca. Ponho-me a caminhar aos pés de ponta. Pés de ponta!! Como bailarina fosse! Ora, mais que. Ora mais que!! Sincronizasse o movimento dos braços com o das pernas, esse homem eu era já quase uma pantera de televisor. Afeito aos absurdos que meu corpo me impõe, com exceção do mínimo luz que já me ainda resta. Bah. Paro. Res. Pir. o. Fffff. Quando respiro, gosto que o ar saia entre meus dentes da frente. Fffff. Fffff. Tem cura, doutor?

Zarparam os barcos. Olha.Olha.a

Continua eu ruabaixo. Já há-visot miahn caas. Grasaç a Desu! Fazi agluns mutnios qeu mues desdo naõ Parma de estlarar frenteiacmente. Timbalada nos meus dedos. Timbalada!! Estou quase vomitando um hino evangélico. Corremos eu e os meus frenéticos doigts em direção ao portão de casa. Trabalhosamente enfio as mãos no bolso em busca das chaves. Se as achar, provavelmente as derrubarei no chão, esses dedos que non-stop. Dito-feito. Chaves no chão, cu na mão. Se ainda há alguma coisa nas mãos, samba por entre os dedos. Samba. Haha.

Aperta os olhos pra ver os barcos.
Não vê mais.


quarta-feira, 21 de março de 2012

a pele, revival

Lembram que eu postei essa danada por aqui no meu dia? Pois é.

Dessa vez resolvi trazê-la a tona neste revival porque Rinah Souto, a generosa moça que deu cor na canção minha e de Chico Limeira, cantou a canção no seu mais recente concerto na Estação Ciência. O resultado 'cês vêem nesse vídeo. Na qualidade de autor, pouts!, a pele arrepiou. Tem alguém aí? Se tem, deixa uma menarca. Chico, Rinah e eu vamos ficar bem contentinhos :)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

alguém, só que no feminino

‘woman, I know you understand the little child inside of the man’
[Mr. Lennon]

                Eita, que eu ando fevereiro! Já mais de mês que eu me devo um texto assim, uma postagem assim, uma coisinha assim. Espero que gostem! :D



E agora há uma paisagem que me grita nos ouvidos, na memória, alguma coisa em indeterminado idioma. Paisagem antes útil, antes inútil. Never fútil. Aqui é uma praia relativamente clara, por trás passa uma avenida meio larga de cinza negro asfalto. Carros poucos, senhoras gordas caminham suas vidas pela calçada, um homem muito queimado de sol e pobreza vende cocos e a si pelo valor dois reais. Aqui tem um quiosque atrás do outro. Todos diferentes, todos iguais. Aqui na areia minha lembrança cata um canudo, embalagens de picolé caseiro, marcadores de livro, um par d’óculos que alguém esqueceu. Aqui catei uma embalagem de camisinha usada. Espero não encontrar a danada. Olha que minha lembrança catou agora um grupo de homens bonitos/ou não jogando vôlei. Jogam mal?, não me interessa. Isso não me interessa. Minha lembrança catou alguém sentado na areia. Por que a palavra ‘alguém’ é masculina?, ora que o alguém que eu vejo é mulher. Sim, mulher. Minha lembrança observa pelo canto do olho alguém sentada na areia olhando o mar. Reconhece? Reconhece. Aqui o nome dessa alguém poderia ser Larissa, Gabriela, Mariana. Poderia bem ser Marina, (i)Nara. Cecília, Carolina, Lua. Talvez carregue nome estrangeiro. Ananda, um ar de rio nas bochechas. Aí você pensa ‘será que ele quis dizer ar de riso e engoliu uma letra?’. Não. Minha lembrança é precisa, era ar de rio mesmo nas bochechas. Olha que é aqui que o doce encontra o mar. Poema na curva dos lábios. Seu nome aqui pudera ser Dôra, Giovanna. Pudera ser Anita. A mulher abraça seus joelhos, ajeita sobre o nariz os olhos escuros sobre os olhos de verdade. Minha lembrança não precisa de olhos escuros pra ver essa alguém. Capaz de seu nome ser Luíza, Jade, Raquel. Se for Raquel e tiver uma irmã, pode que seu nome seja mesmo é Ruth. Minha lembrança não vê novelas, mas escuta. Minha lembrança também pega ônibus. Capaz seu nome seja cor-de-Rosa,  Roseane. Olha que aqui a mulher já espichou novamente suas pernas. Água doce desaba de suas bochechas, algumas gotas minha lembrança catou sobre a areia pra levar pra casa. O doce encontra o sal? Não sei. Seu nome é Lucia? Lucinete? Aqui ela se levantou sobre os dois pés na areia. Abriu os braços pro mar. Beba-me. Deu um grito? Não sabe, minha lembrança não a observa de tão perto que a escute. Põe a mão nos bolsos e vai embora. Aqui seu nome agora era Saudade. Ou era Déa? Regina? Não. Era Saudade mesmo. Era Maria.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

e etc.

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome. [...]’
[João Cabral de Melo Neto]


                Começar 2012, um ano que tem toda uma aura apocalíptica-midiática-cinematográfica, falando de amor. Quer melhor presságio que esse? Espero que essa brincadeirinha vos agrade :] Que o ano que começa seja de muita luz – só assim pra gente enxergar as coisas boas que merecemos e aquelas que necessitam de uma lustrada. Feliz ano novo, meu povo. Ah, e vou dedicar a postagem de início de ano à Profa. Cida. Se ela tiver lendo isso agora, queria um comment :B


I
¿amor uma hora dessas?


II
 - ¿me ama?
 - inhame.


III
em Mianmar
‘inda se morre de
saudade.




segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

corpses

‘poesia é voar fora da asa’
[Manoel de Barros]
               
Sou da tese de que, nos nossos caminhos, já há tudo que esperamos e merecemos: amor, dinheiro, paz, saúde, sucesso, cerveja, poesia, amigos, família, descanso, trabalho. A nós, só falta luz. Luz pra que a gente veja essas boas coisas todas sem precisar tropeçar. É pensando nisso que fecho o ano cá na versorragia: esperando que 2012 seja uma tempestade de leveza nos corações de quem a busca! Saravá, tudo há-de dar certo.
O poema abaixo é, na verdade, parte integrante de um outro texto longo que ando escrevendo já faz uns dias. Hope you like it J
A postagem desse dia eu dedico a Samara, que já a esperava há um tempo. Voilà!



um corpo funciona mais ou menos da mesma maneira que um poema.
um corpo precisa de água, luz, comida, cama, quintal.
um corpo também requer que uma mão carinho passe sobre si quando em vez.
da mesma forma o poema.
o poema precisa a luz água cama comida quintal.
o carinho, o poema chama.

assim como os corpos, quando nus,
os poemas também se deitam juntos, unos,
atravessados,
esfarelando os suspiros uns aos outros.

os homens bebem dos copos,
os poemas dos corpos,
os corpos dos homens.
a cada verso, um gole.

tal feito o poema,
os corpos se lêem uns aos outros.
se desvendam, se escrevem, se remetem e
sobretudo
se rasgam e se rabiscam. Se rascunham.

poemas lavando pratos,
corpos juntando poeira nas estantes.
poemas pagando contas,
corpos sendo roídos pelas traças.

assim como o corpo,
o poema também tem
prazo de validade:
a eternidade.


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

a pele

‘viajar entre pernas e delícias’
[Djavan]


Postagem de aniversário J Eu guardava esse texto para um dia especial que não parecia chegar nunca, até que... chegou! Parabéns pour moi. O dia hoje é só de alegrias!
                O texto que segue é fruto de uma provocação daquelas boas. Dia desses, após uma homenagem ao maestro Pedro Santos, o compositor Chico Limeira (sou sósia dele) me deu a cantada: estava com uma melodia pronta pedindo por uma letra. Eu, que sou fã do cabra, senti-me deveras honrado e, me utilizando de um outro poema que andava guardado por aqui, escrevi ‘A Pele’. Vale ressaltar que, ao escrever, pensava na voz de Rinah Souto, essa danada que já há um tempo nos encanta com a voz e com o sorriso. Ainda não tive a sorte de ouvi-la cantar ao vivo essa minh’A Pele, mas um dia eu chego lá. Espero que gostem J


Anoiteceu
Esfriou
Minha vontade despiu-se sem medo
Meu rosto, meu peito
O meu desejo, meu cansaço, minha voz
Tudo é nudez
E eu só te peço que
Fiquemos sós, meu bem

A pele que arrepia
Anseia teu toque
O beijo atravessado
Tem a mesma sorte
Só quero que tu venhas
Vestindo o avesso
Escreve no meu corpo
Desvenda o segredo

Amanheceu
Clareou
O sol insiste em ferver os amantes
Teu beijo ‘inda queima
Esse teu cheiro que incensa os meus lençóis
‘Inda mora em mim
Ficou no meu texto o teu
Beijo feroz, meu bem

A pele que arrepia
Anseia teu toque
O beijo atravessado
Tem a mesma sorte
Só quero que tu venhas
Vestindo o avesso
Escreve no meu corpo
Desvenda o segredo