quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

oi, boa tarde,

'teu olhar me feriu profundo
e eu não paro de sangrar versinhos moreninhos sem futuro'

[
http://tinyurl.com/2wodsau]

Antes de ser egocentrismo da minha parte citar a mim mesmo ao introduzir este novo poema, é uma maneira de me justificar. Isto porque meu caro amigo Matteo Ciacchi (também meu crítico mais ácido) disse que ando por demais diabético. Endiabrado. Ora, talvez ande. Mas não me digam que eu não avisei, ahn?


oi, boa tarde,
posso te dizer um poema?

meu poema é humilde,
tem cheiro de aurora, cheiro de mulher
cheiro de café da casa da vizinha.
desenhei você no meu poema pra que ele tivesse cheiro de praia.
meu poema tem cheiro de entardecer.

o poema que eu vou te dizer tem cor de abraço apertado
cor de bochechas, cor de limeira,
tem cor de quintal.

e é pequeno, pequeno
cabe em meio canteiro de bem-querer
cabe em meia cantiga de acordar estrelas
do tamanho da desarmônica perfeição do teu rosto cor de sorriso.

meu poema é assim:
me dá tua mão. 



quinta-feira, 25 de novembro de 2010

épica



'(vou me jogar passarin
no teu abraço sem fim)'
[http://tinyurl.com/2uq7xx2]

Coisa mais curiosa, essa. Pois que eu já havia feito poemas de cunho narrativo antes [http://tinyurl.com/2uyfj5r se lembram?], mas nunca dessa maneira. O que significa? Eu também não sei. Só sei que gosto. E quando me dizem que poemas não são pra entender? Poemas são pra sentir, não pra pensar, silly Gustavo. Sim, é bem o tipo de narrativa que nem todo mundo vai conseguir sentir, mas aqueles que chegarem lá hão de se deixar sorrir pelo simples impulso do entendimento mais puro e honesto. Você, que sabe bem o que é deixar a luz dos olhos iluminar a escuridão da beira de estrada em que se sangra, vai sentir um cheiro de alguém, um cheiro vivo, um cheiro cor-de-toque, e vai sorrir e talvez até se deixe cantar uma canção qualquer. Ou talvez seja muita pretensão minha. Mas esse é o tipo de poema que nunca acaba; Se você se deixa sentir, né?

Épica, sim. Ora, se eu não esqueço mais nunca.


madrugada abraçou, o sereno sorriu
amei em braille cada centímetro do teu corpo quente
cantei contigo en la distância dos lençóis
e mordi a metalinguagem do teu beijo


teu olhar me feriu profundo
e eu não paro de sangrar versinhos moreninhos sem futuro.









segunda-feira, 15 de novembro de 2010

retrato que ninguém vê

'vou colecionar mais um soneto
outro retrato em branco e preto
a maltratar meu coração'
Tom Jobim


Outro dia, meu tio Marcos (uma pessoa daquelas que dá gosto de ouvir falar e de conversar - e que se esconde aqui http://psicologomarcoslacerda.blogspot.com/) visitou meu perfil do orkut e se deparou com um trechinho de uma música linda do Clube da Esquina no meu about me (podem checar aqui http://tinyurl.com/3yvcysy ou aqui http://tinyurl.com/32udp7t e também aqui http://tinyurl.com/39soy2t) e veio me indagar se aquele pedacinho de Minas era de minha autoria. Eu, apesar de muito honrado, falei a verdade (naturalmente) e (naturalmente) levei um puxão de orelha por não pôr a referência. Ora!, que audácia de minha parte!, utilizar-me de poesia alheia sem dar o devido crédito. Inspirado nesse episódio, me senti na obrigação de escrever algo que falasse qualquer coisa de mim. Será que consegui?







Passo noites a fio tentando alcançar a cauda do universo
Tento beijar os lábios da madrugada e quase consigo uma vez – ela se distraiu.
Fiz de meu quarto de sonhar um pequeno solstício
E devo ser a maior concentração de caos por metro quadrado do quarteirão.
Gosto de ficar ao sol e de molhar minha juba
Mas prefiro molhar o sol pra ficar com a minha juba.
Danço pro sol, danço pra lua
Danço pra ser sol e pra ser lua.
Tenho vocação pra ser morro de Barro – entorto a bunda das paisagens
E fotografo as meninas que florescem no jardim.
Sou capaz de esconder seus nomes nos poemas
Só pra rir de mim mesmo, iludo que engano um qualquer.
Peco em voz alta, que dá mais futuro
Sangro em voz baixa, que é pra doer menos.
Pra fazer feliz, por sofrer, de te esperar, eu canto
Pra caetanear o que há de bom, eu canto.

Eu num presto nem pra poesia.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

e minha revelação

'dê asas ao amor que vive dentro de todo bom coração
pro mundo ser mais bonito em cada palmo de chão'


Sangrar vem sendo cada vez mais doce, deixando de lado qualquer instinto vampiresco que esta frase possa vir a excitar. Eis que é tempo, afinal, de sangrar. De plantar e esperar para colher. E sentir o cheiro de cada momento da espera, e gozar de cada suspiro farto deste cheiro que revigora. Correr para o mar, e ver que o mar estava dentro de mim. E sentir o cheiro do mar, e colher o mar. E correr para a rua, e ver que a festa estava em mim. E colher a festa. Correr para a dança, e ver que eu já bailava antes. Colher isso também. Colheita constante que me distrai nessa espera agridoce. Cada um colhe a cor e a milícia de ser o que é. Amém.





                                              meu segredo:
                                    tirar da espera
                              o desespero.
                                          beijar as sementes
                                         plantar o toque
                       regar tuas pétalas, colher desejo


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

poesia, cadê?

'meu coração é um alazão passarinheiro'

Hoje não tem poesia.

Uma vez, uma moça bem inteligente me disse que é melhor não magoar um coração, pois você pode estar dentro dele. E olha que um outro moço também muito inteligente já me tinha alertado que sou responsável por aquilos que cativo. Mas eis que sou assim, esse ente de sílabas, o diabo solto no meio do redemoinho, e demoro pra aprender estas que são as lições mais simples e valiosas. E nos últimos tempos, o abandono a quem entreguei esta versorragia me atormentava de maneira tal que tive de dispensá-lo - o abandono pôs-se a construir aqui uma ruína, e essa cidade é muito pequena pra tanta ruína. Sabe-se lá quando me acometerão outras hemorragias!, só sei que daqui de dentro não saio. E olha que ousadia a minha, achar que este sangue pode talvez correr dentro de outros corações que não o meu. Leitores e leitoras talvez tenham sentido minha falta, e não é justo fazer isso com tão pacientes figuras - abençoados estes que se prestam às leituras das minhas veias. Meus caros y caras, também não é justo comigo, preciso pois deste espaço para dizer o que não digo, pensar o que não penso, cantar o que não canto e amar o que amo. Vejam vocês, que quando comecei a sangrar por aqui, sangrava porque sofria. E sofrer, meus caros y caras, é uma arte. E um vício. Mas minha ousadia não tem tamanho, e pensei que já era hora de virar o jogo. Hoje a felicidade desaba sobre mim, e não poderia haver chuva melhor. Mas o poeta só é grande se sofrer, ora!, um moço inteligente que já dizia. Um outro saltava de cantar que os poetas são feitos de corações devorados deglutidos mastigados engolidos. Pobres poetas!, então, sorte minha que sou só um ente de sílabas. Vou continuar fingindo que é amor o ardor que deveras sinto. Me assento cá neste banco, e daqui só me tiram vivo.

E eu achando que não ia ter poesia.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

estancalou.

'visto de costas,
o amor é carne viva
untado de adeus
o amor queima' 
[Ronaldo Monte]

Versei de ritos sanguinolentos o 'spaço desta versorragia. Mas eis que me encontro numa situação de violenta delicadeza e, justo agora!, a poesia resolveu me abraçar tão forte ao ponto de me inutilizar as mãos. Explicação, não há. Sem amor, só a loucura.

precisou doer assim
pra ver que o amor
não cabe em mim.








parto como quem deita sob o sol da manhã de domingo e prende a respiração, na intenção de impregnar aquele cheiro de nada nos pulmões. parto como quem foge de si mesmo dentro do larbirinto. parto como quem nunca chegou.


sexta-feira, 1 de outubro de 2010

ensaio sobre teu beijo

Tua boca brilhando, boca de mulher, 
Nem mel, nem mentira, 
O que ela me fez sofrer, o que ela me deu de prazer, 
O que de mim ninguém tira
[Caetano Veloso]

            Ando silencioso, mas a amorragia é tão intensa quanto a versorragia, e cá estou de volta a este receptáculo de coágulos poéticos.  Este ‘ensaio sobre teu beijo’ é o resultado de uma provocação feita por Paty, quando nos preparávamos para ler ‘blindness’, a tradução para a língua inglesa do ‘ensaio sobre a cegueira’, do premiado e querido escritor português José Saramago.

‘The green light came on at last, the cars moved off briskly, but then it became clear that not all of them were equally quick off the mark. The car at the head of the middle lane has stopped, there must be some mechanical fault, a loose accelerator pedal, the gear lever that has stuck, a problem with the suspension, jammed brakes, a breakdown in the electric circuit, unless he has simply run out of petrol, it would not be the first time such a thing has happened. The next group of pedestrians to gather at the crossing see the driver of the stationary car wave his arms behind the windscreen, while the cars behind him frantically sound their horns. Some drivers have already got out of their cars, prepared to push the stranded vehicle to a spot where it will not hold up the traffic, they beat furiously on the closed windows, the man inside turns his head in their direction, first to one side then to the other, he is clearly shouting something, to judge by the movements of his mouth he appears to be repeating some words, not one word but three, as turns out to be the case when someone finally manages to open the door, I am blind’.
[José Saramago]

Paty nos questionou sobre, se fôssemos obrigados a escolher, qual sentido perderíamos. Eu, honestamente, não respondi à pergunta – sou muito apegado a este pouquinho com que a natureza me presenteou. Mas, prestando novamente meus ouvidos ao ‘estrangeiro’ de Caetano Veloso, me deparei com os versos acima citados, retirados da canção ‘este amor’. E me pareceu quase errado não escrever estes versos no momento que os escrevi e entregá-los a quem os entreguei. Espero que gostem.

ficaria cego de bom-grado 
 - somente pra fazer eco a Saramago -  
e até ensurdeceria 
pois que tua música me invade os poros .


mas só quero ficar mudo 
se for tua boca 
a calar a minha. 










[não consegui achar a canção do Caetano no Youtube, mas aqui - http://tinyurl.com/2chcj3x - você pode baixar o ‘estrangeiro’ inteiro e de graça!, vai lá que o CD é tudo de bão]